Convido-lhe a Escutar a Sua Tristeza

A tristeza é uma emoção que todos nós sentimos, mas por vezes, tendemos a atropelá-la.

Sentirmo-nos tristes é normal, saudável e adaptativo. É certo que quando nos sentimos tristes, a dor que acarreta é desconfortável. A tristeza traz até nós informações preciosas que nos poderão indicar a necessidade de nos recolhermos e de recebermos apoio dos outros bem como alerta-nos para que algo necessita de atenção. No entanto, é comum atropelarmos a nossa tristeza e a transformarmos num grande e luminoso sorriso, e quando nos perguntam “como estás?” Prontamente respondemos “está tudo bem”

A tristeza surge em momentos de perda, a rejeição de um amigo; a perda de admiração por outro; a perda da saúde; a perda de alguma parte do corpo ou função, por acidente ou doença; e, para alguns, a perda de um objeto precioso.

O que o faz se sentir triste? O que costuma fazer quando está triste? Abraça a sua tristeza ou atropela-a, ignorando o que sente.

Em momentos de tristeza utiliza a expressão “estou tão deprimido” ou “que dia deprimente”?


Imagine esta situação:


Recebe uma notícia que implica uma perda sua. Como reage?

a) Ignora a sua tristeza. Eventualmente vai passar e distrai-se com outras coisas.

b) Fica triste e a pensar naquilo vezes sem conta. Centra-se no problema, aponta culpas a si próprio/a, critica-se num processo em espiral.

c) Reflete sobre a situação, repara na emoção que surgiu, coloca tudo em perspetiva.


Agora imagine um aspirador (daqueles mais antigos, que tínhamos de trocar o saco):


1) Começa a aspirar e não gosta de ouvir aquele barulho e acende-se a luz vermelha indicando necessidade de troca de saco. Quer é sair dali, porque lhe causa desconforto, mas ignora a situação ou até a luz vermelha. Continua a aspirar e a produzir pressão internamente que se vai acumulando, acumulando… até que explode. Chamemos-lhe evitamento o ignorar a sujidade que se vai acumulando no aspirador. O que será mais provável acontecer? O mais certo é explodir. Na pior altura e da pior forma!

2) Pode olhar fixamente para o aspirador, sabendo que a qualquer momento o saco pode rebentar, fica a pensar no que deveria fazer ou não fazer para impedir que expluda e olha, desvia o olhar e depois volta a olhar bem de perto para o pó que está a que sair. Resultado, acaba por não fazer mais nada, e pior ainda, queima o aspirador, culpando-se pela situação. Chamemos a isto, ruminação. Remoer e dar voltas aos problemas sem sair para uma solução terminando em exaustão.

3) Pode ainda estar atento à luz vermelha, observando o que vai surgindo, aceitando o que não o(a) deixa confortável, mas que é algo inevitável, e perceber quando deve colocar outro saco no aspirador. O resultado será bem diferente!


Com a tristeza acontece a mesma coisa. Podemos nem pensar no assunto, ignorar o que estamos a sentir, até que existe demasiada pressão e acabamos por explodir ou implodir. Ou permanecer num remoinho deixando que se torne um furacão, alimentando-o cada vez mais.


O que muitas vezes parece acontecer é que de facto, temos muito medo das emoções e principalmente da tristeza. Com frequência nas sessões, deparo-me com um medo que parece que é guarda-costas da tristeza, não permitindo que a observemos. Temos medo de não conseguir controlar a tristeza. Como se sentir tristeza fosse igual a desmoronar, ou seja, descontrolo. E racionalizar igual a controlo… Então usamos estratégias como ignorar ou evitar. Ou ficamos lá a tentar resolver incessantemente para controlar a emoção, mas não a deixamos fazer o seu papel e cumprir a sua função que é expressar uma necessidade.



Aceitar que fica triste, é desconfortável, mas irá dissipar-se em breve, não é evitar nem suprimir. É permitir que aconteça, saber que magoou, deixar espaço para sentir e deixar ir. É uma gestão complexa, mas que dá frutos a longo prazo. Tal como gerir uma empresa ou uma família. É preciso reconhecer as emoções (e nem sempre é preciso categorizar em palavras), expressar, negociar, reavaliar, aceitar, resolver e deixar ir quando necessário de forma a encontrar uma solução útil para a sua vida e bem-estar.


Deixo algumas dicas para escutar a sua tristeza:

• Evite o evitamento quanto mais evita a tristeza mais esta aumenta. A única forma de a diminuir é a enfrentá-la.

• Sente-se com a tristeza, fale com ela. Parar para reconhecer o que está a sentir, poderá ser uma excelente maneira de o fazer e pergunte a si mesmo: Que sensações físicas a tristeza me traz? O que estou a pensar? Como me estou a sentir? E assim, em tempo real, terá a oportunidade de os legendar. E aproveite para dialogar com estas emoções, pergunte à tristeza “Se pudesses falar comigo o que me estarias a dizer? De que te estás a queixar? O que me estás a pedir?”. Este diálogo com as suas emoções, tende a retirar-lhes força e a dar-lhe maior capacidade de regulação emocional.

• Procure, ainda, focar-se no seu campo de ação e de responsabilidade, em detrimento de se focar no que não pode controlar. Quanto mais se focar no seu campo de ação mais os seus níveis de auto-controlo tenderão a aumentar.

• No seu dia a dia, note e anote experiências positivas, muitas vezes permanentemente focados naquilo que não corre bem ou naquilo que pode vir a constituir um perigo. Foque as suas lentes nas suas conquistas e episódios de superação pessoal. ~

• É fundamental ativar a sua rede de suporte para que não se sinta tão sozinho(a), permitindo aumentar o seu nível de flexibilidade.


Com olhar curioso e bondoso, em conjunto, vamos etiquetar e legendar esta tristeza de forma mais adaptativa. Atualizando conteúdo, diferenciando o que me traz um peso extra e decidindo de que material vou abdicar para criar espaço disponível para colocarmos novas formas de pensar, sentir e agir. Formas mais funcionais e saudáveis.

Vamos despedir o guarda-costas da tristeza e convidá-la a chegar-se à frente e dialogar connosco.



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